BUDAPESTE | UM OLHAR SOBRE A QUESTÃO DO DUPLO

“Sem a mínima noção do aspecto, da estrutura, do corpo, mesmo das palavras, eu não tinha como saber onde cada palavra começava e até onde ia. Era impossível destacar uma palavra da outra, seria como pretender cortar um rio com uma faca. Aos meus ouvidos, o húngaro poderia ser mesmo uma língua sem emendas, não constituída de palavras, mas que se desse a conhecer só por inteiro. Segundo as más-línguas, [o húngaro] é a única língua do mundo que o diabo respeita.”

Chico Buarque em Budapeste.

fotos de minha autoria.

Odiava pessoas que não seguem a expressão de Nietzsche: “passar fome na alma, por amor à verdade”- Robert Musil

Odiava pessoas que não seguem a expressão de Nietzsche: “passar fome na alma, por amor à verdade”; os que recuam, fracassam, os moles que se consolam com doces palavras sobre a alma, e a alimentam com sentimentos religiosos, filosóficos e poéticos que são como pãezinhos desmanchados no leite, por recearem que a razão lhes dê pedras em vez de pão.

Robert Musil em Um homem sem qualidades.

A imortalidade de nossos atos – José Saramago

A culpa foi minha, chorava ela, e era verdade, não se podia negar, mas também é certo, se isso lhe serve de consolação, que se antes de cada ato nosso nós puséssemos a prever todas as consequências dele a pensar nelas a sério, primeiro as imediatas, depois as prováveis, depois as possíveis, depois as imagináveis, não chegaríamos sequer a mover-nos de onde o primeiro pensamento nos tivesse feito parar. Os bons e os maus resultados dos nossos ditos e obras vão-se distribuindo, supõe-se que de uma forma bastante uniforme e equilibrada, por todos os dias do futuro, incluindo aqueles, infindáveis, em que já cá não estaremos para poder comprová-lo, para congratular-nos ou pedir perdão, aliás, há quem diga que isso é que é a imortalidade de que tanto se fala.

José Saramago em Ensaio sobre a cegueira.

Boa influência é coisa que não existe. Toda influência é imoral… – Oscar Wilde

Boa influência é coisa que não existe. Toda influência é imoral… imoral do ponto de vista científico.

Influenciar uma pessoa é emprestar-lhe a nossa alma. Essa pessoa deixa de ter ideias próprias, de vibrar com as suas paixões naturais. As suas qualidades não são verdadeiras. Os seus pecados, se é que existe o que se chama de pecado, vêm-lhe de outrem. Essa pessoa torna-se o eco da música de outra pessoa, intérprete de um papel que não foi escrito para ela. A finalidade da vida é para cada um de nós o aperfeiçoamento, a realização plena da nossa personalidade. Hoje, cada qual tem medo de si próprio; esquece o maior dos deveres: o dever que tem consigo mesmo. Naturalmente, o homem é caridoso. Dá de comer ao faminto, veste o maltrapilho. Mas a sua alma é que sofre fome e anda nua. A coragem abandonou a nossa raça.  Talvez nunca a tenhamos tido. O temor da sociedade, que é a base da moral, e o temor a Deus, que é o segredo da religião… eis as duas coisas que nos governam. Contudo sou de parecer que se o homem vivesse plena e totalmente a sua vida, desse forma a todo sentimento, expressão a toda ideia, realidade a todo devaneio… creio que o mundo receberia um novo impulso eufórico, um impulso de alegria que nos faria esquecer todos os males do medievalismo e voltar aos ideais helênicos… talvez a algo mais belo e mais rico do que o próprio ideal helênico. Mas o mais valoroso dos seres humanos tem medo de si mesmo. A mutilação do selvagem subsiste tragicamente na renúncia que nos estraga a vida. Somos punidos pelo que enjeitamos. Todo impulso que nos empenhamos em sufocar incuba no nosso espírito e nos envenena. Peque o corpo uma vez, e estará livre do pecado, porque a ação tem um dom purificador. Nada restará então, salvo a lembrança de um prazer; ou a volúpia de um arrependimento. A única maneira de se livrar de uma tentação é ceder-lhe. Resistamos-lhe, e a nossa alma adoecerá de desejo do que proibimos a nós mesmos, do que as suas leis monstruosas tornaram monstruoso e ilegítimo. Tem-se dito que os grandes acontecimentos do mundo ocorrem no cérebro. Também é no cérebro, e só nele, que ocorrem os grandes pecados do mundo.

Oscar Wilde em O retrato de Dorian Gray.

Ter um público, pensar num público, é viver na mentira – Milan Kundera

Para Sabina, viver na verdade, não mentir para si nem para os outros, só é possível se vivermos sem público. Havendo uma única testemunha de nossos atos, adaptamo-nos de um jeito ou de outro aos olhos que nos observam, e nada mais do que fazemos é verdadeiro. Ter um público, pensar num público, é viver na mentira.

Milan Kundera em A insustentável leveza do ser.

A vida que nos coubera – Elena Ferrante

Não tenho saudade da nossa infância cheia de violência. Acontecia-nos de tudo, dentro e fora de casa, todos os dias, mas eu não me lembro de jamais ter pensado que a vida que nos coubera fosse particularmente ruim. A vida era assim e ponto final, crescíamos com a obrigação de torná-la difícil aos outros antes que os outros a tornassem difícil para nós.

Elena Ferrante em A Amiga Genial.

]O SONHO MAIS PROFUNDO[

Já tive a oportunidade de estar em duas outras apresentações de Radiohead. Em São Paulo, em 2009, e em Barcelona, em 2016. Mas só consegui entender a dimensão de um show da banda no último domingo, na apresentação no estádio Allianz. Ali, ficou claro para mim que os artistas, quando se propõem a fazer uma turnê, não estão fazendo isso só pela grana, não estão ‘divulgando’ um apanhando de músicas concebido para agradar ao público. Ao invés disso, pensam apresentações coesas, que, em si mesmas, carregam a força semântica de algum dos seus próprios álbuns. Conforme o show prosseguia ficava muito claro que existia ali uma estrutura articulada de forma precisa para transmitir uma mensagem maior, como se cada música fosse uma peça de um quebra-cabeças. Compartilho aqui uma possível interpretação da montagem desse mosaico de sensações, sentimentos e razões. Para chegar a essas reflexões, naturalmente, tive de levar em conta a bagagem de muitos anos de acompanhamento do trabalho da banda, e muitas análises e discussões sobre os sentidos possíveis de suas letras. Tão importantes quanto as texturas de som, os efeitos de iluminação, e o virtuosismo musical, são as letras. Quando o show começou, tudo o que estava “fora” começou a desaparecer. Daydreaming, sonhando acordado, senti minha mente sendo conduzida a uma atmosfera transcendente. Nem sei como chama o efeito que o Ed colocou na guitarra, mas os arrepios que me provocaram aquele som me hipnotizaram, me colocaram “além de mim mesmo”. Eu estava pronto para mergulhar na “piscina em formato de lua”, que a própria Lua crescente, pairando acima do palco, vinha testemunhar. Lá dentro, começa uma espécie de convulsão mental disruptiva que a batida de Ful Stop induz. Estamos entrando no desespero mais absoluto, no medo em sua forma mais pura. “Você realmente estragou tudo”. Imobilidade paralisante, que remédio amargo estar preso nessa verdade avassaladora. Mas, epa, como assim vou ficar parado nesse ‘full stop’? É o começo da “cura” que 15 Step vem trazer com sua batida animada, colocando um ‘arco-íris’ no horizonte, estabelecendo o patamar de quando a gente costumava ‘ser ok’… Estamos mergulhados, e gritando e acenando, estamos nos debatendo e salivando como se estivéssemos com Myxomatosis. Como após a tempestade, vem a delicadeza, a paz amarga de You and Whose Army, com projeções que lembram ‘1984’ de Orwell, e uma virtuosidade musical assustadora. Nessa música os instrumentos, principalmente o baixo, entravam de forma delicada, cíclica, como a lembrar as ondas da piscina, que calmamente nos conduzem. Estamos “montando cavalos-fantasma nesta noite”, mas estamos nos saindo muito, muito bem.

Essa apresentação me fez entender o trabalho da banda como nunca. E isso foi, muito, por conta de “All I Need”. Sim, é uma música que fala de amor, mas não necessariamente o amor de uma pessoa por outra. O que entendi, a partir da posição que ela ocupava no setlist, é que eles estão falando de sua relação com aqueles que acompanham seu trabalho. “Estou aqui, no meio da sua foto, deitado na grama, querendo compartilhar sua luz”. É o que estavam fazendo ali. Essa música era um convite, se é que ainda havia alguém alheio… Depois dessa declaração de amor, Thom novamente nos convida a mergulhar. Em Pyramid Song, talvez uma das mais belas músicas já escritas, somos apresentados a um sonho em que todos os nossos amores estão presentes, todo o passado, futuro, embalados por uma perspctiva cósmica e por uma sensação de conforto que nos sussura que não há nada a temer, nada a duvidar. Afinal, está “tudo em seu devido lugar”. A belíssima Let Down vem, em seguida, retratar uma situação em que estamos totalmente desapontados, esmagados como insetos, mas com um desejo imenso de liberdade, de fazer crescer asas. Um movimento cíclico da vida. Vagar por aí. you know where you are with… Falando em insetos e asas, Bloom aparece para lembrar o álbum mais experimental da banda, convidando a um olhar para a natureza, para o cosmos, que nos faz abrir a boca, contemplando os suspiros do universo. A beleza no caos. Thom começa uma gargalhada nervosa antes de The Numbers. E aqui a “linha narrativa” do show toma um rumo político. – Como assim, político?, pode perguntar alguém que nunca se aprofundou nas letras. Pois é. The Numbers é uma música que fala sobre a “mentira do sistema”, mas que as pessoas têm um certo poder…

É impressionante como a visão política das letras da banda, especialmente considerando sua trajetória artística, está passando por uma valorização daquilo que existe de mais profundo no ser humano. Contrapondo-se a uma época do ódio da pós-verdade (retratado tão bem na Burn The Witch, que tem ficado de fora dos sets da banda), aqui começa a se revelar uma das possíveis “chegadas” dessa trajetória que estamos percorrendo no show. Do desespero, à valorização do que existe de mais humano em cada um, e uma esperança melancólica, mas concreta, de que vamos “recuperar o que é nosso”, “um dia de cada vez”… Isso te dá medo? Se isso te dá medo tá tudo bem. É o que vem dizer My Iron Lung, a surpresa do show, colocando uma perspectiva madura a uma manifestação de um passado adolescente, do qual ainda segue viva a inconformidade a todo um sistema de respostas fáceis trazidas pelas religiões e outras instituições. Pra quem ainda tinha dúvidas sobre a guinada política do fio narrativo que conduzia o show pensado para São Paulo, vem The Gloaming, do álbum mais político, Hail to the Thief. Antes de cantá-la num outro show, em 2003, Thom disse assim: “The next song we’re gonna do is a song about the rise of fascism and the right wing. The only way to stop them is to do something. If you do nothing, they’ll win. And these people are fucking crazy”. A mensagem é bem clara, não? Se ainda não ficou claro que Thom estava mandando um recado, ele fez, também no show em São Paulo, um comentário fora da música seguinte, algo muito raro em seus shows (a banda raramente interage com o público fora das próprias músicas). Ainda estou tentando encontrar o texto exato, que não deu para entender na hora, mas foi mais ou menos assim: “Sem alarmes, sem surpresas, e tudo ainda continua o mesmo…” “ninguém faz nada por ninguém, e quem faz é jogado na cadeia, sem surpresas (a fonte desse trecho é da resenha da revista Rolling Stone)”. A música No Surprises, do álbum Ok Computer, que completou 20 anos em 2017, fala sobre rotinas que se repetem, “empregos que te matam aos poucos”, governos “que não falam pela gente”… Pancada, né? É. Mas e aí? Como lidar com essa rotina desesperadora?

Weird Fishes / Arpeggi vem trazendo a resposta: de volta ao arco-íris, de volta ao oceano mais profundo… “Por que eu deveria ficar aqui?” Me faltam palavras pra ir além, porque essa é provavelmente minha música favorita. Mas a frase “I’ll hit the bottom and escape”, além de mote existencial, se encaixa perfeitamente à “narrativa” cuja interpretação estou tentando transmitir aqui. Ir até o fundo, observar bem todos os “peixes estranhos” da nossa alma, chorar, rir, e então escapar… Apesar desse consolo, seguimos ainda uma trajetória política, de volta ao Hail to the Thief, de volta onde 2+2=5, uma música com óbvia referência à distopia orwelliana, e que se encaixa tão bem numa época em que, talvez, não estejamos prestando atenção. Será que é tarde demais? Essa pergunta é respondida pela esplêndida Idioteque, que ao vivo é uma viagem única. A música tem uma parte de puro improviso, que vem sendo organicamente transformado ao longo do tempo… “Rir até a cabeça explodir” parece ser uma das únicas coisas possíveis nesse cenário pós-apocalíptico, essa era do gelo causada pela nossa ignorância. This is really happening. This one is for the children… Nesse contexto tão político, a trágica Exit Music, com sua frase contundente “we hope that you choke” parece ser um grito de protesto. Nessa hora todo o estádio ergueu as lanternas dos celulares, numa das catarses coletivas mais impressionantes que já vi (e provavelmente que jamais verei).

Protesto, nesse universo Radiohead, é sempre um ato hercúleo, um “universal sigh”, e nesse universo, protesto nunca é Revolução. A delicada Nude vem confirmar isso e consolar um público que já estava, em grande parte, em lágrimas. “Não fique brisando em “big ideas”, elas não vão acontecer”. “Encher tudo de barulho”, como eles estão fazendo, pode ser uma saída… A partir daqui o show começa a virar uma festa. Celebra-se a condição humana, suas ambiguidades, suas contradições. Identikit e There There falam de sentimentos ilusórios, do componente ‘acidental’ da experiência de vida de cada um. Lotus Flower é uma dança melancólica. É dançar o luto. Bodysnatchers é uma confusão diante das mentiras em nossa cara, em “pleno século 21”. Foi também uma das mais agitadas, frenéticas de todo o show, precedendo o último intervalo. Nos poucos minutos antes da última parte do show, já começava a tomar conta de todos a percepção de que toda aquela “viagem” estava acabando. Quando voltou com Present Tense, a banda nos dava um abraço delicado, apertado. Essa música fala sobre uma “arma de auto-defesa”, uma dança em ritmo de bossa nova, que Thom nos ensina para nos proteger contra o “present tense”. As my world Comes crashing down I’ll be dancing Freaking out Deaf, dumb, and blind. A sensação que eu tinha nesse momento é que estava plenamente preparado para viver o resto da vida. Paranoid Android foi uma despedida, cantada a plenos pulmões por um estádio em êxtase. Como seres de outra dimensão, eles haviam nos conduzido por um caminho de dores e alegrias, de paralisia e movimento, e agora estavam partindo, para transmitir essa mensagem em outros cantos do mundo. O final anticlimático, trazido pela melancólica Fake Plastic Trees, sobre a descartabilidade de pessoas, relações que parecem a “real thing’, mas são feitas de plástico, consolidou em mim a percepção de uma mensagem que ultrapassa as expectativas de uma apresentação musical. Aquilo não fora um show, mas uma jornada pelos mais recônditos aspectos do meu ser, uma explosão intraduzível de beleza, amadurecimento, e consciência. “Keep it light, and keep it moving”.

Luis Gustavo Velani. Radiohead, São Paulo, 22/04/2018.

Esteriótipos – Carl Sagan

Os estereótipos são numerosos. (…) A interpretação mais generosa atribui esse modo de pensar a uma espécie de preguiça intelectual: em vez de julgar as pessoas pelos seus méritos e deficiências individuais, nós nos concentramos em uma ou duas informações a seu respeito, que depois inserimos num pequeno número de escaninhos previamente construídos. Isso poupa o trabalho de pensar, embora em muitos casos custe o preço de cometer uma profunda injustiça. Com isso, aquele que pensa por estereótipos também fica protegido do contato com a enorme variedade de pessoas, a multiplicidade de maneiras do ser humano.”

Carl Sagan em O mundo assombrado pelos demônios

Sobre individualidade – Flávio Gikovate

Sobre estar sozinho..

Não é apenas o avanço tecnológico que marcou o inicio deste milênio. As relações afetivas também estão passando por profundas transformações e revolucionando o conceito de amor.
O que se busca hoje é uma relação compatível com os tempos modernos, na qual exista individualidade, respeito, alegria e prazer de estar junto, não mais uma relação de dependência, em que um responsabiliza o outro pelo seu bem-estar.
A ideia de uma pessoa ser o remédio para nossa felicidade, que nasceu com o romantismo, está fadada a desaparecer neste início de século.
O amor romântico parte da premissa de que somos uma fração e precisamos encontrar nossa outra metade para nos sentirmos completos.
Muitas vezes ocorre até um processo de despersonalização.
A teoria da ligação entre opostos também vem dessa raiz: o outro tem de saber fazer o que eu não sei. Se sou manso, ele deve ser agressivo e assim por diante. Uma ideia prática de sobrevivência e pouco romântica por sinal.
A palavra de ordem deste século é parceria. Estamos trocando o amor de necessidade pelo amor de desejo.
Eu gosto e desejo a companhia, mas não preciso, o que é muito diferente.
Com o avanço tecnológico, que exige mais tempo individual, as pessoas estão perdendo o pavor de ficar sozinhas e aprendendo a conviver melhor consigo mesmas.
Elas estão começando a perceber que se sentem fração, mas são inteiras. O outro, com o qual se estabelece um elo, também se sente uma fração. Não é príncipe ou salvador de coisa nenhuma. É apenas um companheiro de viagem. O homem é um animal que vai mudando o mundo e depois tem de ir se reciclando para se adaptar ao mundo que fabricou.
Estamos entrando na era da individualidade, o que não tem nada a ver com egoísmo. O egoísta não tem energia própria; ele se alimenta da energia que vem do outro, seja ela financeira ou moral.
A nova forma de amor, ou mais amor, tem nova feição e significado.
Visa a aproximação de dois inteiros e não a união de duas metades. E ela só é possível para aqueles que conseguirem trabalhar sua individualidade. Quanto mais o indivíduo for competente para viver sozinho, mais preparado estará para uma boa relação afetiva.
A solidão é boa, ficar sozinho não é vergonhoso. Ao contrário, dá dignidade à pessoa. As boas relações afetivas são ótimas, são muito parecidas com o ficar sozinho, ninguém exige nada de ninguém e ambos crescem.
Relações de dominação e de concessões exageradas são coisas do século passado. Cada cérebro é único. Nosso modo de pensar e agir não serve de referência para avaliar ninguém. Muitas vezes, pensamos que o outro é nossa alma gêmea e, na verdade, o que fizemos foi inventá-lo ao nosso gosto.
Todas as pessoas deveriam ficar sozinhas de vez em quando para estabelecer um diálogo interno e descobrir sua força pessoal.
Na solidão, o indivíduo entende que a harmonia e a paz de espírito só podem ser encontradas dentro dele mesmo e não a partir do outro.
Ao perceber isso, ele se torna menos crítico e mais compreensivo quanto às diferenças, respeitando a maneira de ser de cada um.
O amor de duas pessoas inteiras é bem mais saudável. Nesse tipo de ligação, há o aconchego, o prazer da companhia e o respeito pelo outro.
Nem sempre é suficiente ser perdoado por alguém, algumas vezes você tem de aprender a perdoar a si mesmo.

Flávio Gikovate foi um médico psiquiatra, psicoterapeuta e escritor brasileiro.

Pode-se prometer ações, mas não sentimentos – Nietzsche

Pode-se prometer ações, mas não sentimentos, pois estes são involuntários. Quem promete a alguém amá-lo sempre, ou odiá-lo sempre, ou ser-lhe sempre fiel, promete algo que não está em seu poder; mas o que pode perfeitamente prometer são aquelas ações que, na verdade, são geralmente as consequências do amor, do ódio, da fidelidade, mas que também podem emanar de outras razões, pois a uma ação conduzem diversos caminhos e motivos. A promessa de amar sempre alguém significa, portanto: enquanto eu te amar, manifestar-te-ei as ações do amor; se eu já não te amar, pois, não obstante, receberás para sempre de mim as mesmas ações, ainda que por outros motivos. De modo que a aparência de que o amor estaria inalterado e continuaria sendo o mesmo permanece na cabeça das outras pessoas. Promete-se, por conseguinte, a persistência da aparência do amor, quando, sem ilusão, se jura a alguém amor eterno.

Nietzsche em Humano demasiado humano.

A culpa que nos cabe – Hermann Hesse

Venho manifestando já por vezes minha opinião de que cada povo e até cada indivíduo, em vez de sonhar com falsas “responsabilidades” políticas, devia refletir a fundo sobre a parte de culpa que lhe cabe da guerra e de outras misérias humanas, quer por sua atuação, por sua omissão ou por seus maus costumes; este seria provavelmente o único meio de se evitar a próxima guerra.

– Hermann Hesse em O lobo da estepe.

Hebreias | Eduardo Galeano

De acordo com o Antigo Testamento, as filhas de Eva continuavam sofrendo o castigo divino. Podiam morrer apedrejadas as adúlteras, as feiticeiras e as mulheres que não chegavam virgens ao matrimônio; Marchavam para as fogueiras as que se prostituíam sendo filhas de sacerdotes e a lei divina mandava cortar a mão da mulher que agarrasse um homem pelas bolas, mesmo que fosse em defesa pessoal ou em defesa do seu marido. Durante quarenta dias ficava impura a mulher que parisse filho varão. Oitenta dias durava a sujeira, se fosse filha. Impura era a mulher com menstruação, por sete dias e sete noites, e transmitia sua impureza a qualquer um que a tocasse ou tocasse a cadeira onde se sentava ou o leito onde dormia.

Eduardo Galeano em Espelhos.

Falso self saudável que todos nós temos | Winnicott

Grosso modo, pode-se dizer que Winnicott utiliza o conceito de falso self (ou falso si-mesmo) em dois sentidos diferentes. Primeiramente, designando algo saudável, comum a todos os indivíduos, falso self como significando, por assim dizer, a faceta social do self, aquela que faz contato direto com o mundo externo, recoberta em grande parte pelas identificações secundárias, pelo funcionamento do processo secundário e apoiada nas operações mentais. O termo “falso” designa aí aquele quantum de autotraição necessário, o preço que todos temos de pagar por sermos seres sociais.

Pode-se afirmar que o falso self saudável funciona basicamente conectado ao self verdadeiro, como uma espécie de representante deste no mundo sociocultural.

Alfredo Naffah Neto em Falso self e patologia boderline no pensamento de Winnicott.

Redução da democracia | Noam Chomsky

A visão de James Madison e a visão de Aristóteles.

Ao longo de toda a história americana tem havido um contínuo confronto entre os esforços produzidos para a obtenção de mais liberdade e democracia, vinda de baixo, e os esforços de controle e domínio das elites, vindos de cima.

Começou na própria fundação do país. James Madison – o principal elaborador, crente na democracia, como qualquer outro naquele tempo – achava, no entanto, que o sistema dos Estados Unidos devia ser concebido – e através da sua iniciativa, assim o foi – para que o poder estivesse nas mãos dos ricos, afinal os ricos eram os homens mais responsáveis. Consequentemente, a estrutura do sistema constitucional formal colocou a maioria do poder nas mãos do senado. Convém recordar que o senado não era eleito, naquele tempo. ele era selecionado entre os ricos. Os homens, segundo Madison, “simpatizavam com os proprietários e os seus direitos”.

Se lerem os debates da Convenção Constitucional, Madison disse: “A grande preocupação da sociedade deve  ser a proteção da minoria abastada contra a maioria”. E ele tinha argumentos: Suponhamos que todos votem livremente, a maioria dos pobres iriam se reunir-se e organizar-se para tirar a propriedade dos ricos. “Isso é evidentemente injusto e não pode acontecer”. Portanto, o sistema constitucional tem que ser concebido para impedir a democracia.

O interessante é que este debate tem raízes muito antigas. No primeiro grande livro sobre sistemas políticos, “A política” de Aristóteles, ele diz: “De todos os sistemas, o melhor é a democracia”. Em seguida, menciona a mesma falha que Madison apontou: Se Atenas fosse uma democracia para os homens livres, os pobres reuniriam-se e tirariam a propriedade dos ricos.

O mesmo dilema, soluções opostas. Aristóteles propôs, o que seria hoje, um estado de bem-estar social, quis tentar reduzir a desigualdade. James Madison propôs reduzir a democracia.

Se olharmos para a história dos EUA vemos uma luta constante entre essas duas tendências. Uma tendência democratizante, que vem sobretudo da população, uma pressão de baixo, uma batalha com períodos de regressão e progresso.

A década de 60, por exemplo, foi um período significativo de democratização. Setores da população que normalmente eram passivos e apáticos organizaram-se e pressionaram por exigências. Envolveram-se cada vez mais na tomada de decisões, no ativismo e por aí fora. Mudou a consciência de muitas maneiras: Os direitos das minorias, os direitos da mulher, a preocupação com o ambiente, a oposição à agressão, a preocupação com outros…

“Se a democracia é liberdade, porque não somos livres?
Se a democracia é justiça, porque não a temos?
Se a democracia significa a igualdade porque não temos igualdade?”
Malcolm X

“Um dia, teremos de fazer a pergunta: Por que existem 40 milhões de pobres na América? Quando começarmos fazer esta pergunta, levantaremos a questão sobre o sistema econômico, sobre uma distribuição mais justa da riqueza, a questão da reestruturação de toda a sociedade americana.” Martin Luther King Jr.

Noam Chomsky no documentário Requiem for American Dream.

Elegia 1938 | Carlos Drummond de Andrade

Trabalhas sem alegria para um mundo caduco,
onde as formas e as ações não encerram nenhum exemplo.
Praticas laboriosamente os gestos universais,
sentes calor e frio, falta de dinheiro, fome e desejo sexual.

Heróis enchem os parques da cidade em que te arrastas,
e preconizam a virtude, a renúncia, o sangue-frio, a concepção.
À noite, se neblina, abrem guardas chuvas de bronze
ou se recolhem aos volumes de sinistras bibliotecas.

Amas a noite pelo poder de aniquilamento que encerra
e sabes que, dormindo, os problemas te dispensam de morrer.
Mas o terrível despertar prova a existência da Grande Máquina
e te repõe, pequenino, em face de indecifráveis palmeiras.

Caminhas entre mortos e com eles conversas
sobre coisas do tempo futuro e negócios do espírito.
A literatura estragou tuas melhores horas de amor.
Ao telefone perdeste muito, muitíssimo tempo de semear.

Coração orgulhoso, tens pressa de confessar tua derrota
e adiar para outro século a felicidade coletiva.
Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuição
porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan.

Carlos Drummond de Andrade em Poema da obra Sentimento do mundo.

Eu tenho um sonho | Martin Luther King Jr.

28 de agosto de 1963 Washington, D.C.

Quando os arquitetos de nossa república escreveram as magníficas palavras da Constituição e da Declaração de Independência, estavam assinando uma nota promissória de que todo norte americano seria herdeiro. Esta nota foi a promessa de que todos os homens, sim, homens negros assim como homens brancos, teriam garantidos os inalienáveis direitos à vida, liberdade e busca de felicidade.

Mas existe algo que preciso dizer à minha gente, que se encontra no cálido limiar que leva ao templo da Justiça. No processo de consecução de nosso legítimo lugar, precisamos não ser culpados de atos errados. Não procuremos satisfazer a nossa sede de liberdade bebendo na taça da amargura e do ódio. Precisamos conduzir nossa luta, para sempre, no alto plano da dignidade e da disciplina. Precisamos não permitir que nosso protesto criativo gere violência físicas. Muitas vezes, precisamos elevar-nos às majestosas alturas do encontro da força física com a força da alma; e a maravilhosa e nova combatividade que engolfou a comunidade negra não deve levar-nos à desconfiança de todas as pessoas brancas. Isto porque muitos de nossos irmãos brancos, como está evidenciado em sua presença hoje aqui, vieram a compreender que seu destino está ligado a nosso destino. E vieram a compreender que sua liberdade está inexplicavelmente unida a nossa liberdade. Não podemos caminhar sozinhos. E quando caminhamos, precisamos assumir o compromisso de que sempre iremos adiante. Não podemos voltar.

Digo-lhes hoje, meus amigos, embora nos defrontemos com as dificuldades de hoje e de amanhã, que eu ainda tenho um sonho. E um sonho profundamente enraizado no sonho norte americano.

Eu tenho um sonho de que um dia, esta nação se erguerá e viverá o verdadeiro significado de seus princípios: “Achamos que estas verdades são evidentes por elas mesmas, que todos os homens são criados iguais”.

Eu tenho um sonho de que, um dia, nas rubras colinas da Geórgia, os filhos de antigos escravos e os filhos de antigos senhores de escravos poderão sentar-se juntos à mesa da fraternidade.

Eu tenho um sonho de que, um dia, até mesmo o estado de Mississippi, um estado sufocado pelo calor da injustiça, será transformado num oásis de liberdade e justiça.

Eu tenho um sonho de que meus quatro filhinhos, um dia, viverão numa nação onde não serão julgados pela cor de sua pele e sim pelo conteúdo de seu caráter.

Quando deixarmos soar a liberdade, quando a deixarmos soar em cada povoação e em cada lugarejo, em cada estado e em cada cidade, poderemos acelerar o advento daquele dia em que todos os filhos de Deus, homens negros e homens brancos, judeus e cristãos, protestantes e católicos, poderão dar-se as mãos e cantar com as palavras do antigo espiritual negro: ” Livres, enfim. Livres, enfim. Agradecemos a Deus, todo poderoso, somos livres, enfim.

Martin Luther King em Eu tenho um sonho.

O inconsciente freudiano | Slavoj Žižek

O inconsciente freudiano causou tamanho escândalo não só por afirmar que o eu racional está subordinado ao domínio muito mais vasto dos instintos irracionais e cegos, mas porque demonstrou como o próprio inconsciente obedece à sua própria gramática e lógica: o inconsciente fala e pensa. O inconsciente não é terreno exclusivo de pulsões violentas que devem ser domadas pelo eu, mas o lugar onde uma verdade traumática fala abertamente.

Slavoj Žižek em Como ler Lacan.